Cine Resenhas

O Leitor

09/07/2009 · 13 Comentários

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Ainda que não seja um grande feito no cinema do diretor Stephen Daldry, muitos tem agido de forma injusta em relação da recepção dada ao drama “O Leitor” de acordo com as cinco indicações que obteve na última edição do Oscar, uma surpresa, de fato. Muitos interpretaram que foi o longa a ocupar a vaga deixada por “Batman – O Cavaleiro das Trevas” na categoria de melhor filme. Mesmo sendo uma adaptação de quadrinhos mais soturna do que de costume, era improvável que a Academia considerasse o filme em departamentos mais importantes como o de ator coadjuvante para Heath Ledger, que acabara por levar o prêmio póstumo.

No fim das contas, Kate Winslet foi a atriz que arrebatou o prêmio num papel que seria de Nicole Kidman. Antes cotada como atriz coadjuvante, a Academia reverteu tudo considerando-a uma protagonista. Uma escolha acertada, ainda que sua Hanna Schmitz não seja quem conduza o longa, e sim Michael Berg (o soberbo David Kross na fase adolescente e Ralph Fiennes quando mais velho). Há uma pequena alternância de tempos, mas os dois primeiros atos são reservados no relacionamento de Hanna e Michael, então com quinze anos de idade. Depois de passar mal ao retornar do colégio ele é socorrido por Hanna, que trabalha como cobradora em um bonde. Ele terá a sua primeira relação sexual com esta mulher que tem mais do que o dobro de sua idade e crescerá, assim, uma paixão quase obsessiva. Existe também uma troca de “favores”: Hanna oferece sexo enquanto Michel retribui com leituras, já que Hanna é analfabeta. Entre os romances lidos estão “O Amante de Lady Chatterley” (D. H. Lawrence), “A Odisséia” (Homero), “A Dama do Cachorrinho” (Anton Tchékov) e “Guerra e Paz” (Leon Tolstói).

Incompreendido, “O Leitor” despertou certa fúria da crítica e público por um motivo – somando também com o já mencionado reconhecimento na Academia de Artes e Ciências Cinematográficas -, sendo em relação do seu segundo ato, com ecos sobre a Segunda Guerra Mundial . Neste instante, Michael, já abandonado por Hanna sem razão aparente e um pouco mais velho, cursa direito tendo Rohl (Bruno Ganz) como seu professor. Quando presencia pela primeira vez um julgamento se depara com Hanna, dada como culpada pela morte de centenas de judeus enquanto atuava como vigia no campo de concentração.

Os resultados são tocantes, ainda que não conduzida com a mesma maestria apresentada por Daldry no primeiro ato e em uma sequência nos instantes finais protagonizados por Fiennes e Lena Olin. E neste encontro, mesmo dando margens para diversas interpretações, trás uma descrição mais acertada do que pode ser absorvido sobre “O Leitor”, que é sobre personagens centrais totalmente envolvidos pelo passado trágico que viveram, sendo Michael pela paixão da adolescência da qual não conseguiu superar, Hanna pelos atos monstruosos que cometeu e Ilana (Olin) pela forma como foi atingida pela Alemanha nazista. Nos três casos, somente a coragem em encarar o passado é o caminho para que o episódio seja superado e as dores amenizadas.

Título Original: The Reader
Ano de Produção: 2008
Direção: Stephen Daldry
Elenco: Kate Winslet, David Kross, Ralph Fiennes, Bruno Ganz, Alexandra Maria Lara e Lena Olin.
Nota: 7.5

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Frost/Nixon

08/07/2009 · 8 Comentários

Frost/Nixon
Adaptação da peça teatral de Peter Morgan, “Frost/Nixon” marcou presença na última cerimônia do Oscar com indicações em cinco categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (Frank Langella), Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Edição. Assim como “Dúvida“, filme que também recebeu cinco nomeações, “Frost/Nixon” saiu de mãos vazias, embora se mostre um filme melhor do que a maioria da concorrência. Frank Langella e Michael Sheen dividiram a cena na peça de Morgan e na versão cinematográfica conduzida por Ron Howard ambos reprisam com maestria os seus papéis.

Michael Sheen incorpora o apresentador britânico David Frost e Frank Langella o ex-presidente Richard Nixon. Encarado somente como um showman, Frost tenta reverter o quadro de sua reputação profissional convidando Nixon para a sua primeira entrevista após a renúncia de 1974, ocorrida pelo caso Watergate, o escândalo político de operações ilegais com os quais esteve envolvido. O ex-presidente aceita a proposta depois de um contrato que o faria filmar algumas horas de entrevistas divididas em quatro dias em troca de uma elevada quantia em dinheiro.

E assim segue-se “Frost/Nixon”, revelando todos os bastidores dessa entrevista que, quando apresentada, conquistou a audiência de milhares de espectadores, que ouviram pela primeira vez após a renúncia Frost declarando a decepção que causou à nação americana. O que valoriza esse acontecimento histórico encenado nos cinemas é que não se trata unicamente de uma fita política, escancarando aos poucos o caráter e vulnerabilidade entre entrevistador e entrevistado em um verdadeiro duelo verbal. O resultado só não é melhor pela ausência de tensão que há em diversas passagens da entrevista. Afinal, o melhor momento de “Frost/Nixon”, quando Nixon surpreende Frost em uma ligação noturna, não se passa em uma sala de estar em frente às câmeras.

Título Original: Frost/Nixon
Ano de Produção: 2008
Direção: Ron Howard
Elenco: Frank Langella, Michael Sheen, Kevin Bacon, Rebecca Hall, Matthew Macfadyen, Sam Rockwell, Oliver Platt e Toby Jones.
Nota: 7.0

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Quem Quer Ser Um Milionário

07/07/2009 · 14 Comentários

Quem Quer Ser Um Milionário
Em sua estréia como diretor em 1994 com “Cova Rasa”, o inglês Danny Boyle já recebeu certa notoriedade ao ponto de realizar os seus projetos posteriores circulando por temáticas e gêneros bem distintos. “Quem Quer Ser Um Milionário?”, o seu oitavo filme, evidencia um cineasta que sequer atinge alguma maestria, ainda mais se considerarmos as irregularidades que permeiam toda a sua filmografia (embora “Trainspotting – Sem Limites” seja uma ótima realização). Mesmo assim, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, o Oscar, se mostrou bem generoso ao consolidá-lo com o prêmio de Melhor Diretor no último evento. “Quem Quer Ser Um Milionário?” também arrematou as estatuetas que representavam as categorias de Melhor Canção Original, Melhor Som, Melhor Trilha Sonora, Melhor Fotografia, Melhor Edição, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Filme. Só não dá para fazer muitas queixas pela concorrência não ter sido lá muito forte, já que não havia de fato um longa entre os finalistas que fosse excepcional.

Quem Quer Ser Um Milionário? é uma atração televisiva onde os participantes podem faturar uma bolada se responderem corretamente as questões com quatro alternativas (é parecido com o ”Show do Milhão”). E é para este programa que o pobre jovem Jamal (a revelação Dev Patel) se inscreve para chamar a atenção da sua amada Latika (a também revelação – e belíssima – Freida Pinto). O que movimenta a trama é as suspeitas que o próprio apresentador Prem Kumar (o ótimo Anil Kapoor) levanta em relação do Jamal. Praticamente um analfabeto, o rapaz acerta todas as perguntas sobre conhecimentos gerais. Mas Jamal não está trapaceando. Como naqueles lances forçados de destinos cinematográficos, as perguntas tem conexão com a infância e adolescência miseráveis do nosso herói.

Essa história em tom de fábula rende bastante, especialmente no seu empolgante terceiro ato, mas o filme não é digno de todo esse reconhecimento. E nem de tanta fúria. Boyle certamente não se deixou levar pelo sucesso de “Cidade de Deus” ao ponto de influencia-lo na realização deste projeto independente (e nem se o fizesse adquiriria um resulto à altura do obtido pela obra máxima de Fernando Meirelles). Também não é um filme ofensivo, que usa da pobreza presente em favelas indianas para criar um espetáculo. Estamos em tempo de crise financeira e os americanos precisam de uma história que os reconforte de alguma maneira, que os façam pensar que o amor é capaz de substituir a falta de grana. E é este o problema: joga-se na lixeira qualquer mérito artístico em troca de uma “fantasia” com final feliz que todo mundo gostaria de ter.

Título Original: Slumdog Millionaire
Ano de Produção: 2008
Direção: Danny Boyle
Elenco: Dev Patel, Freida Pinto, Anil Kapoor, Irrfan Khan e Madhur Mittal.
Nota: 7.0

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Milk – A Voz da Igualdade

06/07/2009 · 15 Comentários

Milk - A Voz da Igualdade
Harvey Bernard Milk foi o primeiro homossexual eleito a um cargo público, atuando como supervisor do município de São Francisco. A sua trajetória narrada no filme, por sua vez protagonizado por Sean Penn (que ganhou o seu segundo Oscar), que vai desde o início do seu relacionamento com Scott (papel de James Franco) até a sua trágica morte, é comandada por Gus Van Sant. O diretor assumidamente homossexual, que iniciou a sua carreira na execução de longas-metragens em 1985 com “Mala Noche”, usa o texto do vencedor do Oscar e também homossexual Dustin Lance Black para extrair um filme político que atua da mesma forma como Harvey Milk se desempenhava, protestando em favor dos direitos da minoria.

Mesmo que nos tempos atuais se note que os preconceitos diante da diferença em opções sexuais (ou mesmo de qualquer outro como raça ou credo), filmes como “Milk – A Voz da Igualdade” se fazem necessário por vivermos em uma sociedade que ainda está cega ao ponto de não abraçar o direito que os humanos têm de se relacionar com um parceiro do mesmo sexo.

Com base nesta verdade, mas ilustrando os anos 1970, “Milk – A Voz da Igualdade” se articula diante das investidas políticas de Harvey Milk, que aos quarenta anos está totalmente revoltado em ver tantas pessoas de mesma orientação sexual serem tão humilhados e desprezados como se fossem anomalias, abandonando a sua loja de revelação fotográfica em busca de algo maior. Diante de discursos públicos e movimentos pelas ruas de São Francisco, Milk consegue recrutar aliados e conquista um maior número de votos a cada eleição até conseguir se candidatar.

Só é uma pena que o diretor que constrói esse registro real seja Gus Van Sant. Ele é um bom diretor. Mas o que incomoda continua sendo a sua falta de identidade. O cineasta, que ora realiza filmes “convencionais” ora “alternativos”, parece perdido na condução de “Milk – A Voz da Igualdade”. Há grandes vacilos. A primeira cena com Milk, por sinal, já antecipa a tragédia que tomará o final, com ele usando um gravador para registrar a sua luta e como ela foi interrompida. E se o uso de documentos de época inclusos na obra não são muito bem casadas à narrativa, é estranho os cortes que sequências íntimas entre Milk e seu namorado ou amante sofrem. Harvey Milk sempre lutou por aquilo que acreditava. A sua vida no cinema merecia ser conduzida por um diretor que de alguma maneira tentasse corresponder profissionalmente a essa virtude.

Título Original: Milk
Ano de Produção: 2008
Direção: Gus Van Sant
Elenco: Sean Penn, Josh Brolin, James Franco, Emile Hirsch, Diego Luna, Alison Pill, Victor Garber e Joseph Cross.
Nota: 6.0

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O Curioso Caso de Benjamin Button

05/07/2009 · 21 Comentários

O Curioso Caso de Benjamin Button

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Vindo do universo videoclipeiro, David Fincher é hoje um dos diretores mais respeitados que atua em Hollywood. É um profissional que se preocupa por cada um dos detalhes de suas películas e com o hábito de ser grandioso e radical. Essas virtudes o fazem ser destacado por muitos cinéfilos como o melhor diretor em atividade ou o mais subestimado pelas referências de sua falta de popularidade diante do grande público. A verdade é que não se trata de um diretor extraordinário. Ele acerta ao investir em trabalhos mais modestos e sem grandes pretensões, como “Se7en” (o seu melhor filme) e “O Quarto do Pânico”. Os outros, no entanto, agregam várias imperfeições, ainda que “Clube da Luta” seja prestigiado como um dos grandes filmes cults do cinema.

Um conto de F. Scott Fitzgerald serve como base para “O Curioso Caso de Benjamin Button”. O personagem-título (Brad Pitt, em fraca performance indicada ao Oscar) foi abandonado após o parto. O motivo está relacionado a morte de sua mãe após dar à luz e a sua aparência, que se assemelha a de um idoso. A bem-intencionada Queenie (Taraji P. Henson, indicada ao Oscar pela interpretação), que o vê nas escadarias do local onde mora, acaba adotando-o e o cria como se fosse o seu próprio filho. Queenie imagina que serão poucos os dias de vida do bebê, até que ele cresce de uma forma misteriosa: ele rejuvenesce fisicamente, abandonando a sua fisionomia envelhecida com o passar dos anos. Mas essa história se desenvolve em forma de flashbacks, com Caroline (Julia Ormond, lamentavelmente desperdiçada) lendo o diário de Benjamin Button a pedido da sua mãe à beira da morte Daisy (Cate Blanchett, deslumbrante).

Somando ao todo treze indicações na última edição do Oscar, sendo considerado também nas categorias de melhor diretor e melhor filme, o drama conquistou somente os prêmios de Direção de Arte, Maquiagem e Efeitos Especiais, categorias técnicas que de fato impressionam. Mas é aí que “O Curioso Caso de Benjamin Button” encontra os seus limites. É um cinema de fato grandioso, repleto de mínimos detalhes, mas não verdadeiramente emocionante. Com esta história mágica, David Fincher poderia ter realizado um longa belo sobre a celebração da vida humana. Estão lá todos aqueles elementos que sempre cercam cada um de nós, especialmente o amor como o maior trunfo e a morte como a maior tristeza em toda uma existência. Mas eles são neutralizados por causa da condução pouco carinhosa para essa história.

Título Original: The Curious Case of Benjamin Button
Ano de Produção: 2008
Direção: David Fincher
Elenco: Brad Pitt, Cate Blanchett, Julia Ormond, Taraji P. Henson, Jason Flemyng, Phyllis Somerville, Elle Fanning, David Ross Paterson, Taren Cunningham, Tilda Swinton e Elias Koteas.
Nota: 6.0

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