300
24/06/2007

Necessitou de mais intrepidez essa adaptação da famosa série em quadrinho assinado por Frank Miller chamada “300″. Mesmo que ainda não tenha lido a história, ela é agregada por uma fusão de confrontos, intrigas e soberania. Rende em outro setor de lazer uma transposição pouco memorável ao comando de Zack Snyder, cineasta não muito talentoso que dirigiu o quase intragável “Madrugada dos Mortos”. Existem batalhas muito bem coreografadas, elenco inspirado e clímax eletrizante. Mas no meio de tantas virtudes, especialmente as do departamento técnico, Snyder oferece somente um filme da forma como o grande público se satisfaz, e não uma obra histórica séria o suficiente para relacionar-se as melhores produções épicas como “Coração Valente”, “Ben Hur” ou mesmo “Joana D’ark de Luc Besson” – um dos filmes mais subestimados de todos os tempos.
Miller com o apoio de Lynn Varley fez uma ampla pesquisa para criar sua HQ, pegando toda a essência e fatos históricos somados as suas próprias liberdades criativas ao reviver a batalha das Termópilas de 480 a.C. onde trezentos espartanos enfrentam sem temor os milhares de soldados persianos. A primeira e pequena tropa é liderado pelo Rei Leônidas (Gerald Butler, sempre confortável em personagens da antiguidade), casado com a Rainha Gorgo (Lena Headey, atriz de “O Retorno do Talentoso Ripley”, “Possessão” e “Os Irmãos Grimm”). Enquanto ele comanda o árduo confronto, ela esforça-se em convencer uma Assembléia formada por diversas classes em reunir mais soldados para apoiar Leônidas. Antes de tudo isto existiu Dario I, imperador persa que falhou junto a sua tropa em dominar a grande Grécia. Com a sua morte após o fracasso, o trono foi entregue ao seu filho Khchayarcha (no filme, interpretado por nosso conterrâneo Rodrigo Santoro), conhecido por todos como Xerxes. Agora, com o poder em mãos, ele fará de tudo para derrotar os guerreiros espartanos, mesmo que convicto de uma instantânea vitória.
O conteúdo é complexo ao extremo e a metragem não é suficiente para entrar em detalhes ou entregar muitos destaques, pois a abertura que nos desvenda as origens de Leônidas é passageira e as criaturas digitais não são nada amedrontadoras o quanto se esperava. Mas avaliando o limbo onde as produções da mesma relação se encontra graças a Ridley Scott (por “Gladiador” e “Cruzada”), Oliver Stone (por “Alexandre”) e Wolfgang Petersen (por “Tróia”), existe uma expressiva e única dose que é capaz de valer a sessão: diversão. Quando a ação começa para valer, a bravura se manifesta por alguns instantes, e os exuberantes cenários junto aos efeitos visuais se transformam nos pontos mais altos do entretenimento disposto. Neste modo de avaliação, o problema da narração acaba se tornando positivo se o objetivo é embarcar num passatempo sem compromisso. Já basta para um “arrasa – quarteirão” modesto de limitado potencial, ideal para todos os envolvidos alcançarem fama no mercado americano, o que se sucede com Zack Snyder, o nome definitivo para comandar a adaptação de Watchmen, um dos quadrinhos mais cultuados já existentes, com início de filmagens programado ainda neste ano, em Setembro.
Título Original: 300
Ano de Produção: 2006
Direção: Zack Snyder
Elenco: Gerard Butler, Lena Headey, David Wenham, Dominic West, Vincent Regan, Michael Fassbender, Rodrigo Santoro, Andrew Tiernan, Andrew Pleavin, Tyrone Benskin, Marcello Bezina e Clint Carleton.
Nota: 6.5
O Amor Pode Dar Certo
17/06/2007

Dermot Mulroney sempre está confortável nos papéis de galã, mas nunca deixou de nos mostrar que é capaz de interpretar outros tipos dotados de dramaticidade como Randall Hertzel de “As Confissões de Schmidt” e John Munn de “Contra Corrente”. Amanda Peet já é mais reconhecida no cinema americano do que o companheiro de trabalho, alternando escolhas simpáticas (“Melinda & Melinda”) como as mais densas (“Identidade”). Mesmo que já sejam antigos conhecidos nossos, faltam-lhe um merecido destaque, um filme que forneça para ambos a chance de protagonista único. É uma pena que a expectativa de ver Dermot e Amanda à frente de uma produção não atinja o grau necessário. Trata-se do velho tema de reaver seus próprios conceitos e aproveitar a vida de forma intensa enquanto o tempo de vida vai se tornando restrito, já explorado em irregulares exemplares recentes como “Antes que Termine o Dia” ou “Um Amor Para Recordar”, mesmo que nestes exemplos exista lá alguma profunda emoção.
Refilmagem de um filme televisivo, o singelo título original refere-se a Henry Griffin e Sarah Phoenix. O primeiro descobre um câncer fatal que não tem cura, mas que pode ser retardado com tratamento rigoroso – não opta pela escolha, só exige antídotos que não o faça sofrer na hora da morte. Já ela conhece não tão pelo acaso Griffin em uma palestra cedida numa universidade. Temperamental, Phoenix quer distância de qualquer relacionamento sério com os homens. Depois de troca de impressões, encontros casuais e até mesmo uma fuga após a entrada sem ingresso num cinema, eles descobrem o afeto que tem um pelo outro, mas o destino intervêm muito antes do esperado. Os que não tiveram a oportunidade de ver “O Amor Pode Dar Certo” na tela grande, podem aproveitar o rápido lançamento em DVD, programado pela Paris Filmes para o dia vinte de Junho.
Mesmo que o casal de intérpretes entreguem alguma sintonia, a primeira experiência de Ed Stone (roteirista e ator de “Happy, Texas”) como diretor de longa-metragem para o cinema é de grande frialdade. Stone tenta a todo custo imprimir o drama, o romance e um pouco de humor num mesmo filme, mas sua tentativa resulta fracassada. Ele não conseguiu delinear cenas verdadeiramente comoventes, a paixão do casal não exala um aumento de vitalidade necessária ao tema em questão e o cômico não possui descontração. Além de outros descuidos como a trilha-sonora mal aplicada e a cena final derrotista (uma pequena ação que parece demonstrar que o amor de Griffin e Phoenix não nos serviu para nenhuma reflexão, e sim o esquecimento, uma passageira experiência), fica difícil para os talentosos Dermot Mulroney e Amanda Peet ultrapassarem sozinhos estes fartos obstáculos. Que ao menos o destino da vida profissional sorria para eles nos projetos futuros.
Título Original: Griffin & Phoenix
Ano de Produção: 2006
Direção: Ed Stone
Elenco: Dermot Mulroney, Amanda Peet, Sarah Paulson, Blair Brown, Alison Elliott, Lois Smith e Jonah Meyerson.
Nota: 5.0
Notas Sobre Um Escândalo
07/06/2007

É abordada a obsessão no cinema através de personagens comuns que não conseguem se relacionar com qualquer outra pessoa, que vivem amargurados pela solidão ou pela conquista de alguma meta pessoal. Isto foi explorado a exaustão, apenas lembrando exemplares como “Mulher Solteira Procura”, “Atração Fatal” e “Obsessão” (filme dirigido, escrito, protagonizado e produzido por Kevin Bacon). O recente “Notas Sobre Um Escândalo” ganha um tratamento distinto com o tema, mas a promessa de grande filme independente não foi cumprida como o esperado. Já está manjado afirmar que todo o elenco está espetacular, assim como a trilha sonora e o próprio argumento – todos com indicações ao Oscar 2007. Enquanto Cate Blanchett entrega outra interpretação nada menos que perfeita e Bill Nighy (de” Anjos da Noite” e “Simplesmente Amor”) encontra-se formidável nos poucos instantes de aparição, Judi Dench caracteriza a melhor atuação de toda a sua carreira. A música nervosa de Philip Glass é responsável por conceber todo o nível de tensão, com tons que se elevam a cada momento, capaz de estarrecer todos que conferem as seqüências de maior impacto. Qual a falha? Ela reside unicamente em Richard Eyre, diretor de “Iris” e “A Bela do Palco”. Com tantas ferramentas invejáveis em mãos, ele as utiliza conduzindo a história de forma desprimorosamente veloz.
Baseado no romance “Anotações Sobre um Escândalo”, de Zoë Heller, recentemente publicado pela Editora Record, conta a história da solitária Barbara Covett, rigorosa professora de História. No colégio onde leciona há anos, entra a novata Sheba Hart, formada em Artes. Logo, seus trajes inapropriados e sua postura desengonçada chamam a atenção da veterana e formal Barbara – que desenvolve interesse de amizade e amor. Se isto já não bastasse para uma história de intrigas, segredos e mentiras, Sheba acaba tendo um caso proibido com seu próprio aluno, Steven Connolly (o jovem Andrew Simpson, do desconhecido “O Inferno de São Judas”), de apenas quinze anos. Como o pôster anuncia (“O erro de uma pode ser a oportunidade da outra”), Barbara subornará Sheba para realizar todas as suas vontades. Caso o contrário, ela não se calará diante do público para contar o relacionamento secreto.
A adaptação é envolvente, pois difícil é não se importar com a obsessão de Barbara: conquistar uma amizade de grande fidelidade com Sheba. Mas é operoso criar polêmica com o relacionamento desequilibrado e quase irracional da ingênua professora de Artes com o prodígio aluno, quando nem ao menos vemos um caso de amor dos mais convincentes. Eyre concluiu um trabalho austero demais, impossibilitando que o escândalo dos acontecimentos na tela se expressem com o mesmo impacto fora dela. Com mais serenidade entregaria uma grande obra-prima, mas da forma que se finalizou, o resultado só adquire razoável satisfação exclusivamente pelas virtudes do elenco, música e argumento.
Título Original: Notes on a Scandal
Ano de Produção: 2006
Direção: Richard Eyre
Elenco: Judi Dench, Cate Blanchett, Andrew Simpson, Bill Nighy e Syreeta Kumar.
Apocalypto
03/06/2007

Cineasta audacioso, Mel Gibson novamente posiciona-se por trás das câmeras para orquestrar outro de seus filmes polêmicos. Longe do escândalo causado por “A Paixão de Cristo”, “Apocalypto” despertou interesse pela falta de materiais de divulgação, as filmagens reclusas, da própria história em questão e a soma com as atitudes e comentários desenfreados do próprio Gibson do lado de cá das telas. Distante de “A Paixão de Cristo” por não caracterizar com mesmo impacto o calvário de Jesus Cristo, mas trata-se de uma aventura épica repleta de força, diversão e brutalidade fora dos padrões americanos.
Falado em dialeto maia (que não compromete o compreendimento graças a legenda e a invasão da ação), a trama gira em torno de uma tribo indígena que é surpreendida por grande império que submete-os a uma longa jornada à força. Chegando ao templo dos governantes, são submetidos a sacrifícios, como vínculo de adquirirem objetivos propícios. Jaguar Paw (Rudy Youngblood) é o personagem central de toda a aventura, do qual confirmará a vida de “um novo começo” (significado do nome que dá título ao filme).
É importante destacar todo o elenco composto por nenhum nome conhecido, todos bons em seus respectivos papéis, especialmente o protagonista Youngblood. Com a impressionante maquiagem, os belos cenários e toda a tensão pregada, Gibson só falha na emoção e bravura. Acompanhamos a busca de Jaguar Paw em rever a mulher grávida e o filho pequeno “protegidos” dentro de uma caverna sem a mesma densidade do, por exemplo, épico “Coração Valente” – que rende uma sequência no clímax demasiadamente improvável. Ainda assim, pode ser apreciado tanto pela história como divertido passatempo com algo a mais. Mas é recomendável que a platéia mais sensível tape os olhos nas decapitações, torturas e outras artimanhas tão recorrentes nos filmes do ator e cineasta.
Título Original: Apocalypto
Ano de Produção: 2006
Direção: Mel Gibson
Elenco: Rudy Youngblood, Dalia Hernández, Jonathan Brewer, Morris Birdyellowhead, Carlos Emilio Báez, Amilcar Ramírez e Israel Contreras.
Nota: 7.5
Cinéfilo desde a infância, Alex Gonçalves, 19 anos, iniciou as suas atividades no Cine Resenhas em 25 de fevereiro de 2007, ainda que antes disso já tenha preservado outros espaços com suas análises. A paixão pelo cinema o motivou a escrever de maneira geral sobre esta fascinante arte, dedicando o seu tempo livre para publicação de seu próprio material. Atualmente trabalha na área administrativa e cursa escolas de Idiomas e Gestão em Negócios, tendo também interesse em audiovisual e fotografia. Está aberto a participar de projetos em outros espaços, assim como expandir o seu ciclo de amizades virtuais.

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