Glória ao Cineasta!
O que faz um diretor de cinema quando as suas idéias se esgotaram para um nova produção? É a pergunta que “Glória ao Cineasta!” responde de forma bem-humorada. Dirigindo, roteirizando e editando, Takeshi Kitano também aparece aqui como protagonista, interpretando uma versão de si mesmo. O realizador, sempre afeito a fitas de ação, fita exausto pela linha de sua carreira e tenta investir em gêneros dos quais ainda não contribuiu.

Seguem-se filmes românticos, dramáticos, terroríficos, entre outros. O planejamento de cada idéia não sai como o esperado, pois o resultado ou remete a violência presente em sua filmografia ou trazem histórias que simplesmente não dão certo, a exemplo de uma produção de época de um garotinho vítima da violência entre colegas e família ou daquela que se aproveita do sucesso de j-horror trazendo fantasma com maquiagem sinistra. A primeira metade de “Glória ao Cineasta!” se dedica a esses inspirados recortes dos mais variados tipos de cinema.

A segunda parte, no entanto, tem um argumento definido – e é nele que a eficácia da comédia evapora, fazendo a fita atingir um resultado somente mediano. O diretor Kitano, neste momento, parece de fato não ter idéia alguma do que está fazendo, direcionando “Glória ao Cineasta” a um caminho de pouca graça e interesse. A salvação só aparece na forma das atrizes Anne Suzuki e Kayoko Kishimoto. Tenho que admitir que essas duas me fizeram gargalhar como há muito tempo não conseguia. Ambas interpretam vigaristas que bolam artimanhas que sempre dão em fracasso. A cena onde almoçam em um restaurante e acrescentam uma barata na comida para não pagar por ela é antológica, assim como aquelas onde tentam se safar do pagamento de aluguel e que simulam um atropelamento para arrancar grana de ricaços. A idéia de Kitano, que mistura várias referências ao cinema, é bem-vinda, mas os méritos da fita pertencem a elas.

Título Original: Kantoku · Banzai!
Ano de Produção: 2007
Direção: Takeshi Kitano
Elenco: Takeshi Kitano, Anne Suzuki, Kayoko Kishimoto, Toru Emori, Keiko Matsuzaka, Yoshino Kimura, Kazuko Yoshiyuki, Yuki Uchida, Akira Takarada.
Nota: 6.0

O Lutador

30/07/2009

O Lutador
É extremamente comum no cinema hollywoodiano testemunharmos vários intérpretes de incrível talento ter as suas carreiras rapidamente destruídas por escolhas equivocadas tanto na vida profissional quanto pessoal. Mickey Rourke é um entre vários casos existentes. Embora nunca tenha demonstrado em cena um empenho visceral, extraordinário, Rourke conquistou vários espectadores em filmes da década retrasada, como “Coração Satânico”, “9 e ½ Semanas de Amor” e sua ponta em “Corpos Ardentes”. Já nos anos 1990 veio o abismo. O casamento com a sua parceira de cena em “Orquídea Selvagem”, Carré Otis, resultou em denúncia de violência doméstica e acabou abandonando a carreira de ator para investir na de boxeador. É verdade que houve chances de renascimento quando Rourke foi convidado a participar do elenco de apoio de filmes como “Búffalo 66″, “A Promessa” e “Sin City – A Cidade do Pecado”, mas isso definitivamente acontece em “O Lutador”.

Em uma interpretação soberba e que dificilmente devemos testemunhar se repetir em projetos futuros, Rourke é Randy “The Ram” Robinson, personagem que anteriormente passou pelas mãos de Nicolas Cage. Ele foi um dos grandes lutadores na década de 1980 e nos dias atuais faz show nos ringues para um pequeno público, atingindo os seus oponentes e sendo revidado com golpes que vão de socos à pauladas. O limite aparece ao sofrer um ataque cardíaco. Impossibilitado de voltar ao ofício (seu coração não resistiria), resta a Randy trabalhar em um supermercado e reverter a situação de sua vida pessoal destroçada. Ao mesmo tempo que tenta investir em um relacionamento com a stripper Cassidy (Marisa Tomei) tenta reatar aquele que se perdeu no passado com a sua filha Stephanie (Evan Rachel Wood, sublime).

O segundo roteiro original para cinema de Robert D. Siegel trás como maior triunfo o caminho de Randy rumo à redenção. Há fartos momentos maravilhosos nesta história e Darren Aronofsky, em sua primeira direção não experimental, apresenta um domínio fantástico na condução de câmera e elenco. Mas o filme não atinge um resultado excepcional em todos os momentos por conta de algumas imperfeições no texto de Siegel. A personagem Cassidy, por exemplo, recebe tratamento raso, sendo aquele estereótipo de mulher de “trabalho sujo” sem marido e com filho para criar. Resta a atriz Marisa Tomei, que recebeu a sua terceira nomeação ao Oscar pelo papel e que já vencera o prêmio pela comédia “Meu Primo Vinny“, conferir através da excelência de seu talento dimensão a sua personagem. Quebra-se também o encanto de acompanhar Randy em circunstâncias quando paralelos insistentes aparecem com o ator que o incorpora. Isso não quer dizer que “O Lutador”, com a sua antológica conclusão que certamente povoará a mente do público, não seja um ótimo filme. Só o impede de ser mais do que isto.

Título Original: The Wrestler
Ano de Produção: 2008
Direção: Darren Aronofsky
Elenco: Mickey Rourke, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood, Mark Margolis, Todd Barry, Wass Stevens e Judah Friedlander.
Nota: 7.5

Segredos Íntimos

29/07/2009

Segredos Íntimos
“Segredos Íntimos”, do diretor israelense Avi Nesher, é um novo registro cinematográfico da vida sufocante que as mulheres levam diante dos costumes da religião ao qual pertencem. Afinal o roteiro de Hadar Galron e também de Nesher destacam duas personagens de condutas e sentimentos que não condizem com aquelas impostas pelas suas famílias, que as pressionam de todas as formas para se casarem.

Elas são Naomi e Michelle (respectivamente Ania Bukstein e Michal Shtamler). A primeira acaba de perder a mãe e pede ao seu pai que possa adiar o casamento já planejado, pois tem o interesse de mergulhar nos ensinamentos judáicos em uma escola em Safed. E é lá que Naomi se envolve com Michelle, vinda de uma família afortunada e que se apresenta como uma garota bem rebelde. A princípio ambas não apresentam qualquer sintonia, mas se tornam amigas íntimas ao ajudar Anouk (Fanny Ardant), uma francesa cristã em delicado estado de saúde que oculta um passado obscuro. A amizade se intensifica enquanto submetem Anouk em um ritual de purificação permitido somente aos judeus.

Em direção ao mesmo tempo suave e audaciosa, Nesher trabalha muito bem em “Segredos Íntimos” a relação entre essas três mulheres, especialmente na relação lésbica que acontece entre Naomi e Michelle. Esse turbilhão de emoções abre espaço para que o espectador possa se conectar com a história e analisar os rumos que ela leva, por vezes devastadores. Com isto, “Segredos Íntimos” se torna mais um título interessante que, mesmo com a distribuição limitada, compensa aqueles que o procurarem. As distâncias, se assemelha com a proposta do também recentemente exibido “Alguém que Me Ame de Verdade“, mas com resultados bem superiores.

Título Original: Ha-Sodot
Ano de Produção: 2007
Direção: Avi Nesher
Elenco: Ania Bukstein, Michal Shtamler, Fanny Ardant, Adir Miller, Guri Alfi, Alma Zack e Tikya Dayan.
Nota: 7.0

Dragonball
Qualquer fã de mangá (aquelas famosas histórias em quadrinhos onde a leitura se inicia da direita para a esquerda) provavelmente é aficionado pelo universo de “Dragon Ball”. Com o sucesso do material de Akira Toriyama logo foi gerada a adaptação em animação. Com isso, a fama de Toriyama aumentou com a onda de fãs que “Dragon Ball” conseguiu em muitos lugares, inclusive no Brasil. As aventuras de Goku na animação, ao contrário dos mangás, obteve três longos atos. O primeiro, “Dragon Ball”, focava em sua infância. Já em “Dragon Ball Z” a ação ocorria quando ele já era um homem casado e com filhos. E por fim foi criado “Dragon Ball GT”, o terrível ato final de Goku, que aqui retorna ao seu corpo de criança.

No todo, é uma animação cercada de personagens e conflitos bem detalhados e que contava com elementos o suficiente para alegrar tanto a molecada quanto o público adolescente. A possibilidade de uma adaptação para os cinemas não era uma idéia descartável, embora já se imaginava desde o início que as coisas não dariam certo. E assim, depois de vinte e três anos que “Dragon Ball” ganhou vida em versão mangá, é o que se concretizou, mas pelas mãos dos americanos. É verdade que no filme “Dragonball Evolution” também há orientais movimentando as engrenagens (um deles é ninguém menos que Stephen Chow, famoso diretor e protagonista de “Kung-Fu Futebol Clube” e “Kung-Fusão”), mas a mediocridade pesa mais para o lado dos estadunidenses que se sujeitaram ao ridículo de tentar transformar em bem-sucedido a idéia que soava risível desde sua concepção, que foi o de transportar o mundo fantasioso e quase inadaptável de “Dragon Ball” para as telas de cinema.

O resultado é ruim em todos os sentidos, sendo por motivos narrativos, passando pelos fracos efeitos especiais e a falta de fidelidade a caracterização de vários personagens (Joon Park pode ser qualquer personagem, menos com Yamcha). A correria do roteiro de Ben Ramsey (que atualmente está escalado também como roteirista de “Luke Cage”) já lança Goku (Justin Chatwin, no papel que provavelmente vai acabar com a sua carreira) prestes a completar dezoito anos de idade. Ele mora com o seu avô (Randall Duk Kim) e se apaixona no colégio por Chi Chi (Jamie Chung). Dá que Piccolo (James Marsters, com uma maquiagem sem as orelhas enormes do personagem da animação) vai à Terra em busca das Esferas do Dragão. Há um total de sete e quando reunidas o Dragão Shenlong é despertado e concebe qualquer desejo.

É constrangedor, mas não será o pior filme da sua vida nem se você for um fã número um de “Dragon Ball”. A verdade é que o filme consegue um ou outro bom momento quando dois personagens estão presentes em cena. Emmy Rossum, que encarnou Christine na versão cinematográfica de Joel Schumacher para “O Fantasma da Ópera”, interpreta Bulma e a jovem atriz consegue trazer muitas das características de sua personagem. Chow Yun-Fat, por sua vez, diverte como o Mestre Roshi (na verdade, o seu personagem na fonte original se chama Mestre Kame). Mas é só. Dá que no fim das contas o público será capaz de assemelhar essa realização de James Wong como qualquer coisa, menos como uma adaptação fiel ou minimamente parecida com “Dragon Ball”.

Título Original: Dragonball Evolution
Ano de Produção: 2009
Direção: James Wong
Elenco: Justin Chatwin, Emmy Rossum, Jamie Chung, Chow Yun-Fat, James Marsters, Joon Park, Eriko Tamura e Randall Duk Kim.
Nota: 3.0

Todd Solondz

Todd Solondz tem uma aparência que remete a um nerd, conforme costumam dizer a imprensa especializada. Magrelo, usando vestes e calçados esquisitos (especialmente os seus tênis muitas vezes amarelos) e antes portando grandes óculos, o diretor e roteirista já disse que muitos dos dramas que constrói surgem das próprias experiências pessoais que viveu quando era mais jovem (há quem consiga ver paralelos entre ele e Dawn, personagem incorporada por Heather Matarazzo em “Bem-Vindo à Casa de Bonecas”).

Se as experiências poderiam muito bem transformá-lo em um ser humano amargurado elas acabam servindo como ferramenta para este que é uma das mentes mais interessantes do cinema independente. Os seus argumentos se baseiam naquilo que é chamado de sonho americano, mas a sua função é o de apresentar toda a mediocridade e podridão que cercam a sociedade como um todo.

Faltando somente alguns meses para completar cinquenta anos, Todd Solondz sempre foi exaltado pela crítica preguiçosa como o diretor capaz de fazer a platéia rir da tragédia vista na tela e que, simultaneamente, estranha o próprio comportamento. Mas a sua filmografia comentada abaixo trás um realizador que com toda a certeza o marcará por inúmeras razões ainda mais intrigantes.
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FILMOGRAFIA

Bem-Vindo à Casa de Bonecas

BEM-VINDO À CASA DE BONECAS – 1995

“Bem-Vindo à Casa de Bonecas” não é o primeiro trabalho de Todd Solondz, mas foi o primeiro a conseguir lançamento no Brasil, embora hoje esteja extinto no formato VHS. Heather Matarazzo, excelente em seu primeiro papel aos treze anos, é Dawn, uma menina que é alvo de piadas dos colegas de escola e de desprezo no ambiente familiar. É também a protagonista de um retrato criado por Solondz, onde nem as crianças se encontram livres de uma sociedade moldada por aparências, embora até elas não sejam nada inocentes quando testemunhamos as humilhações passadas por Dawn. Ganhou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Sundance e fez discreto sucesso nas bilheterias americanas.
Cotação: 3 Stars
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Felicidade

FELICIDADE – 1998

A obra máxima do diretor e também o seu filme mais completo. Usando o já hoje surrado recurso onde uma história se movimenta com a ligação entre indivíduos desconhecidos, “Felicidade” toca em temas espinhosos como pedofilia sem nenhum pudor. O drama foca personagens que, ironicamente, podem ser qualquer coisa, menos felizes. Sem este sentimento, Solondz aproveita para revelar que há pessoas mais sórdidas, confusas e melancólicas do que Joy Jordan (Jane Adams), um dos fios condutores da narrativa.
Cotação: 4 Stars
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Histórias Proibidas

HISTÓRIAS PROIBIDAS – 2001

Com o prestígio obtido com “Felicidade”, Todd Solondz decepciona bastante em “Histórias Proibidas”, embora não seja uma fraca produção. O diretor tem um roteiro a princípio interessante, dividindo-o em dois com os títulos de “Ficção” e “Não-Ficção”. A idéia aqui é elaborar duas sérias histórias que são recebidas por personagens secundários de uma maneira inversa da esperada. Mas se “Ficção” é um retrato quase perfeito pela sua acidez, “Não-Ficção” se revela entediante tanto pela sua longa duração (de aproximadamente cinquenta minutos) quanto pelos rumos que levam as filmagens do cotidiano de uma família cujo filho mais velho tem sonhos futuros que levam a platéia as gargalhadas.
Cotação:
3 Stars
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Palíndromos

PALÍNDROMOS – 2004

Neste drama inédito em nosso país, Todd Solondz se aproxima do mesmo patamar de “Felicidade”. O tema é a maternidade e o diretor novamente levanta polêmicas ao falar sobre pedofilia. Há também outras consequências sérias aqui mostradas, como o aborto. O filme tem uma complexidade nunca vista igual no cinema de Solondz, construindo Aviva através do corpo de várias atrizes, entre as quais Jennifer Jason Leigh, Sharon Wilkins e Valerie Shusterov. Com isto Solondz consegue transmitir a sensação de que qualquer mulher poderia ter vivido a mesma circunstância. E os palíndromos do título não se dá somente no nome da personagem: independente das mudanças que possam ser impostas, todos sempre serão os mesmos em suas essências.
Cotação: 4 Stars
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ATUAÇÕES

Todd

Assim que iniciou a sua carreira nos cinemas em 1985 com o curta-metragem “Schatt’s Last Shot”, Todd Solondz também experimentou a arte de representar, incorporando um jovem que tenta surpreender a garota que gosta em uma partida de basquete no colégio onde estuda. Este foi o primeiro de cinco trabalhos como ator, mas foi somente em “Fear, Anxiety & Depression” (o seu primeiro longa-metragem inédito no Brasil) que Solondz teve um tempo maior em cena. É mais fácil conferir as suas aparições em “De Caso Com A Máfia” e em “Melhor é Impossível”. No primeiro filme, dirigido por Jonathan Demme, ele faz uma ponta como um repórter. Já na comédia de James L. Brooks, Solondz aparece dentro de um ônibus.
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PROJETO FUTURO

Sem estar envolvido em qualquer projeto desde “Palíndromos”, Todd Solondz agora volta a dar as caras com o a dramédia “Life During Wartime”, que deve ser exibido ainda este ano. Em fase de pós-produção, nada muito detalhado foi divulgado sobre a premissa. Algumas fontes informam que o filme deve seguir a mesma linha de “Felicidade”, mas desenvolvendo personagens diante de uma guerra. O projeto chamou a atenção pelo rumor de Paris Hilton estar envolvida no elenco, algo negado poucas semanas depois. Ainda assim, há outros nomes bem conhecidos, como os de Shirley Henderson (“Hipnose”), Charlotte Rampling (“Swimming Pool – À Beira da Piscina”), Ciarán Hinds (“Margot e o Casamento”) e Allison Janney (“As Horas”). O orçamento de “Life During Wartime” é de aproximadamente cinco milhões de dólares e as suas filmagens iniciaram em outubro do ano passado.
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LINKS RELACIONADOS

- IMDb: Conheça a filmografia do diretor
- Todd Solondz: Site sobre a carreira do diretor
- Zeta Filmes: Entrevista com o diretor
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Laranja Psicodélica: Download de “Palíndromos”