Eu Te Amo, Cara
29/09/2009

Há muitas pessoas que em determinado momento de suas vidas ficam confusas ao constatarem que, até então, não cultivaram amizades suficientemente fortes. E isto não é algo impressionante, vendo que está cada vez mais difícil nos dias de hoje contar com uma amizade que sobrevive através da confiança, honestidade e companheirismo. John Hamburg, diretor de “Quero Ficar Com Polly” e roteirista de “Entrando Numa Fria”, não tem o mínimo de sensibilidade para trabalhar de forma envolvente com uma premissa que se desenvolva através desta realidade. Mas até que dá conta do recado ao converter este fato dramático em uma piada.
Peter Klaven (Paul Rudd) é o sujeito que se vê diante dessa situação solitária de não ter amigos quando a sua noiva Zooey (a carismática Rashida Jones) arma os preparativos para o casamento, que inclui todos aqueles convites para madrinhas e padrinhos do casal. Com isto, o filme persegue a busca de Peter por um amigo. Os maridos das amigas de Zooey é o extremo oposto do nosso protagonista e os encontros que marca com estranhos não são bem-sucedidos. É como corretor tentando vender a mansão de Lou Ferrigno (sim, o próprio dá as caras na comédia) que ele conhece Sydney Fife (Jason Segel), aquele que não somente topará ser seu padrinho de casamento, como também o seu companheiro de todas as horas. Literalmente.
Desse momento em diante, “Eu Te Amo, Cara” se resume aos encontros dos personagens. Eles são bem diferentes entre si. Peter é um homem responsável, contido. Já Sydney leva as coisas de maneira desleixada, sem preocupações ou ambições. Mas existe uma sintonia. E ela envolve a plateia. Não há aqui o nome de Judd Apatow envolvido na produção, mas o espírito da realização de John Harburg é praticamente o mesmo, fazendo com que a ausência de personalidade nos faça tratar o seu filme somente como um passatempo esquecível. E é, só que concebido com qualidade. A participação especial da clássica e sensacional banda canadense “Rush” enriquece o resultado.
Título Original: I Love You, Man
Ano de Produção: 2009
Direção: John Hamburg
Elenco: Paul Rudd, Jason Segel, Rashida Jones, Sarah Burns, Jaime Pressly, Jon Favreau, Jane Curtin, J.K. Simmons, Andy Samberg e Lou Ferrigno.
Nota: 7.0
A Proposta
28/09/2009

Desde o regular “Miss Simpatia 2 – Armada e Poderosa”, produção de 2005, que Sandra Bullock não protagonizava uma fita da mesma linha. Uma das razões para este afastamento do gênero que elevou seu status se dá pela idade. Hoje com quarenta e cinco anos, a atriz se dedicou em incorporar personagens mais densas. Os resultados foram bem-sucedidos (“Crash – No Limite” e “Confidencial“) e mal-sucedidos (“A Casa do Lago” e “Premonições“). Mas quem aprecia a sua doçura e carisma só tem a comemorar o retorno de Bullock à comédia com “A Proposta”, onde ela arrasa. E o público respondeu bem a esta investida, já que o filme da diretora Anne Fletcher é o maior sucesso de Bullock nos Estados Unidos, tendo arrecadado quatro vezes mais o valor de seu investimento de quarenta milhões de dólares.
Também produtora, Sandra Bullock agora encarna a vilã megera Margaret Tate, poderosa editora de livros. Embora a deteste, Andrew Paxton (Ryan Reynolds) praticamente joga pela lixeira a sua vida pessoal para satisfazer como assistente as vontades de sua chefe, tendo que cancelar até mesmo o compromisso de rever a sua avó que está prestes a completar noventa anos de vida (interpretada pela impagável Betty White, que rouba a cena). Mas há uma justificativa para tanta dedicação, pois Andrew sonha que Margaret possa publicar o seu romance. E ela vai, mas de uma forma que ele nunca imaginaria: se casando com a bruxa por obrigação. É que Margaret é canadense e arma a farsa para não ser deportada, já que seu visto expirou. O palco desse jogo de interesses se situará no Alasca, onde toda a família de Andrew mora.
A trama é modesta e os seus rumos são previstos pelo público, mas “A Proposta” não é um programa descartável como tem sido declarado. A verdade é que o filme é suficientemente engraçado para valer até mesmo uma revisão. Isso porque a diretora e coreógrafa bem requisitada em Hollywood Anne Fletcher aplica aqui o mesmo jogo de cintura de seus outros sucessos anteriores, “Ela Dança, Eu Danço” e “Vestida Para Casar”. Ou seja, ela sabe muito bem satisfazer as expectativas do espectador, não muito exigente para fitas desse gênero. É verdade que falta no filme aquela acidez de seu início, mas é um pequeno detalhe diante de tantas risadas. Destaque para a sequência com Sandra Bullock e Betty White realizando um estranho ritual em plena manhã em uma floresta, que resulta em uma mórbida dança de rap.
Título Original: The Proposal
Ano de Produção: 2009
Direção: Anne Fletcher
Elenco: Sandra Bullock, Ryan Reynolds, Mary Steenburgen, Craig T. Nelson, Betty White, Denis O’Hare, Oscar Nuñez, Aasif Mandvi e Malin Akerman.
Nota: 7.0
Arraste-Me Para o Inferno
25/09/2009

Sam Raimi passou praticamente toda a década se dedicando na direção da série cinematográfica “Homem-Aranha”. Mesmo que sejam filmes de natureza fantástica, todos sempre aguardavam por um retorno às suas raízes, dos bons tempos de “Uma Noite Alucinante”. É verdade que, de certa maneira, ele nunca abandonou o gênero que o consagrou, já que antes de “Homem-Aranha” ele dirigiu o esplêndido drama sobrenatural “O Dom da Premonição”. Raimi também é um dos investidores da Ghost House, produtora que bancou projetos como “O Grito”, “Os Mensageiros” e “Rise – A Ressurreição”. Só que as caríssimas aventuras de Peter Parker o impossibilitava de dirigir algo aos moldes da série protagonizada pelo impagável Bruce Campbell. Talvez por isto “Arraste-Me Para o Inferno” seja um dos eventos cinematográficos mais empolgantes do ano. E o melhor: merece toda essa expectativa, pois é um filmaço.
O roteiro do próprio Sam Raimi e de seu irmão Ivan Raimi estava pronto há anos e só agora ganha vida. O prólogo de aproximadamente quatro minutos já reserva um eficiente resumo do que se trata a história. Trata-se da maldição lançada por ciganos que evoca Lâmia, criatura satânica que arrasta para as profundezas do inferno a alma amaldiçoada três dias antes através de algum pertence. E esta maldição recaiu em Christine Brown (Alison Lohman), funcionária de uma agência bancária que nega a extensão de um empréstimo solicitada pela pavorosa senhora Ganush (Lorna Raver) a fim de impressionar o seu chefe (papel de David Paymer) e obter a vaga de gerente assistente. Depois de um embate sensacional dentro de um estacionamento, Ganush retira o botão da blusa de Christine e amaldiçoa o objeto, fazendo o seu dono passar por três dias sufocantes marcados por aparições macabras, sons medonhos, moscas e outras esquisitices.
O espectador já pode testemunhar que “Arraste-Me Para o Inferno” se sustenta com base nos filmes B de horror. O logotipo da Universal Pictures apresentado nos créditos iniciais e finais é o mesmo de quase trinta anos atrás. E como poucos realizadores hoje em dia, Sam Raimi consegue resgatar todo esse espírito trabalhando com as ferramentas hoje disponíveis na indústria. Os efeitos especiais, por exemplo, são perigosos, pois podem destruir qualquer atmosfera perturbadora que tenta predominar na história. Algo que não acontece em “Arraste-Me Para o Inferno”, pois aqui eles são eficientes justamente por serem grotescos, por vezes cartunescos. Aliás, se há outra coisa que Sam Raimi faz com maestria é a forma como mescla horror com humor. Em todos os momentos é fácil se pegar em gargalhadas ao mesmo tempo que os nervos se arrepiam progressivamente.
Se isso já não fosse o suficiente, ainda há outras características que só enaltecem “Arraste-Me Para o Inferno”. A trilha-sonora composta por Christopher Young, um grande maestro de temas suspicazes e constante colaborador de Sam Raimi, é um primor, atuando como um personagem fundamental em cena através de acordes tenebrosos. Já o elenco também merece destaque. Cercado de ótimos coadjuvantes, Alison Lohman é quem tem a maior responsabilidade. Antes seria Ellen Page a protagonista de “Arraste-Me Para o Inferno”, mas o diretor foi feliz por ter contado com a disponibilidade de uma atriz muito mais experiente e infinitamente melhor e depositar nela confiança para carregar todo o filme. Toda a empatia que temos pela personagem e sua intrigante situação é mérito de Lohman. Por sinal, todos os instantes você certamente estará se questionando o que faria caso estivesse na pele de Christine e se de fato ela é a grande vítima da própria escolha que fez.
É o melhor filme do gênero exibido até o instante este ano. Todavia, há um lamento: embora esteja em planejamento outros projetos terrorifícos, como a refilmagem de “Uma Noite Alucinante”, já é certo que Sam Raimi passará os próximos anos bem ocupado com a quarta aventura do “Homem-Aranha”. Um cineasta fantástico como este não pode continuar apodrecendo no inferno limitador e artificial que o heroísmo e os draminhas fajutos de Peter Parker certamente representam.
Título Original: Drag Me to Hell
Ano de Produção: 2009
Direção: Sam Raimi
Elenco: Alison Lohman, Justin Long, Lorna Raver, Dileep Rao, David Paymer, Reggie Lee, Kevin Foster, Molly Cheek, Chelcie Ross, Ted Raimi, Flor de Maria Chahua e Adriana Barraza.
Nota: 9.5
Juízo Final
24/09/2009

Se há diretores que merecem algum reconhecimento logo em seu trabalho de estreia, o britânico Neil Marshall talvez não seja um deles. Vai saber como, seu “Dog Soldiers – Cães de Caça”, produção de 2002 sobre tropa de soldados ingleses em floresta escocesa que aos poucos se transformam em lobisomens, virou cult. Em “Abismo do Medo” o prestígio foi ainda maior, com direito a comentários afirmando que se tratava da melhor produção do gênero desde o distante “Alien – O Oitavo Passageiro”. Mas se o claustrofóbico filme situado quase inteiramente dentro de uma caverna com criaturas sinistras de fato é muito bom, em “Juízo Final”, terceiro trabalho de Marshall, não há quase nada para ser aproveitado.
A premissa é de uma falta de originalidade tamanha. Na Inglaterra atual o Vírus Reaper se espalha matando milhares de pessoas. A pequena Eden Sinclair (Christine Tomlinson) é uma das poucas sobreviventes. Trinta anos depois, ela, uma major nas formas de Rhona Mitra, é designada a atravessar um muro enorme que foi construído no passado para separar os sobreviventes das possíveis vítimas da epidemia. A sua missão é procurar por uma cura que possa combater o Vírus Reaper, pois há indícios de que há vida “do outro lado”. O que Eden e sua equipe encontram é uma surpresa: uma sociedade composta por canibais metaleiros.
As conexões aqui são com uma das obras mais populares de John Carpenter, “Fuga de Nova York”. Mas os aficionados pelo gênero notarão várias outras influências, especialmente de obras recentes como “Extermínio”. Mesmo surrado, dá para acompanhar como diversão descompromissada essa aventura de horror até a metade. Deste momento até a sua conclusão, no entanto, a ação acontece em uma sociedade medieval liderada pelo personagem de Malcolm McDowell. Soa tão desconexo e risível que remete a uma produção qualquer de Uwe Boll. Mas há de se destacar uma pequena ousadia por parte de Neil Marshall. Trabalhando com o maior orçamento da sua carreira (trinta milhões de dólares) ele continua preservando o espetáculo de sangue de suas fitas anteriores, aqui elevado a potência máxima – há uma cena de canibalismo e outra de decapitação de tirar o chapéu. Inerte como sempre, Rhona Mitra ao menos conta com a vantagem de ter a cara ideal para protagonizar projetos com essa adrenalina exigida.
Título Original: Doomsday
Ano de Produção: 2008
Direção: Neil Marshall
Elenco: Rhona Mitra, Bob Hoskins, Malcolm McDowell, Craig Conway, Lee-Anne Liebenberg, MyAnna Buring, Emma Cleasby, Alexander Siddig, Adrian Lester e MyAnna Buring.
Nota: 5.0
Anticristo
23/09/2009

O cineasta dinamarquês Lars von Trier é considerado por muitos cinéfilos como o diretor mais polêmico em atividade. Não se trata de uma afirmação exagerada, já que cada um de seus filmes sempre é alvo de controvérsia quando lançado. Com o recentemente apresentado “Anticristo” a situação não foi diferente, a exemplo da exibição no Festival de Cannes deste ano. A reação ao término da fita se sucedeu entre vaias e aplausos. Mas o verdadeiro resultado de “Anticristo” atinge um equilíbrio diante desses dois pesos díspares: é interessante o suficiente ao ponto de não ser um projeto desastroso, só que de tão desorientado fica difícil apreciá-lo por completo.
A história é dividida em quatro capítulos: “Luto”, “Dor – Caos Reina”, “Desespero – Genocídio” e “Os Três Mendigos”. No prólogo sensacional, flagramos um casal definidos na trama como Ele (Willem Dafoe) e Ela (Charlotte Gainsbourg) fazendo sexo enquanto o único filho deles morre em queda ao se aproximar de uma janela. Ele supera a perda enquanto Ela não é capaz de processá-la, estando com uma profunda depressão. Ele, um psicólogo, propõe à Ela se isolarem em uma cabana chamada Eden no meio de uma floresta para se submeterem a tentativas de poder controlar as suas emoções. No entanto, a reclusão se transforma em pesadelo, já que estranhos fenômenos começam a se materializar no ambiente.
A ideia para esta realização surgiu no longo período de depressão do diretor Lars von Trier. Os enigmas vistos na tela são resultados de pesadelos e sentimentos de angústia vividos por ele. Mas sua vontade aqui está mais de exorcizar os seus próprios demônios com sequências arrepiantes do que em explicá-los. E aí reside a frustração que “Anticristo” rende, mesmo que Willem Dafoe e especialmente Charlotte Gainsbourg se entreguem a valer em seus personagens. Nada contra fazer cinema totalmente autoral ou aplicar para o público a responsabilidade de compreender por si mesmo o que ele está sendo assistido. O problema é transformar isto em algo que sobrevive mais como uma experiência perturbadora e menos como cinema. É verdade que quem acompanha o trabalho de von Trier já terá alguma base do que esperar, mas as suas outras obras mais recentes, como “Dançando no Escuro” e “Dogville”, são trabalhos muito mais gratificantes de serem contemplados que se locomovem com praticamente as mesmas ferramentas, mas com arrogância moderada por parte de seu diretor.
Título Original: Antichist
Ano de Produção: 2009
Direção: Lars von Trier
Elenco: Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg
Nota: 6.0
Cinéfilo desde a infância, Alex Gonçalves, 19 anos, iniciou as suas atividades no Cine Resenhas em 25 de fevereiro de 2007, ainda que antes disso já tenha preservado outros espaços com suas análises. A paixão pelo cinema o motivou a escrever de maneira geral sobre esta fascinante arte, dedicando o seu tempo livre para publicação de seu próprio material. Atualmente trabalha na área administrativa e cursa escolas de Idiomas e Gestão em Negócios, tendo também interesse em audiovisual e fotografia. Está aberto a participar de projetos em outros espaços, assim como expandir o seu ciclo de amizades virtuais.

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